Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 23 Novembro , 2009, 19:32

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

 

 

Álvaro de Campos


Por Pedro Leitão | Domingo, 04 Outubro , 2009, 16:33

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!

 

Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...

 

Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!

 

Fernando Pessoa


Por Pedro Leitão | Quarta-feira, 14 Janeiro , 2009, 01:17

Desci, dando-te o braço, ao menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás é o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve nossa longa viagem.
A minha dura ainda, mas já não me ocorre pensar
nas conexões, nas reservas,
nas ciladas, nos vexames dos que crêem
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja melhor.
Contigo as desci porque sabia que de nós dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que tão ofuscadas,
eram as tuas.

 

Eugenio Montale


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 08 Outubro , 2007, 23:19
  A minha Dor é um convento ideal

  Cheio de claustros, sombras, arcarias,

  Aonde a pedra em convulsões sombrias

  Tem linhas dum requinte escultural.

 

  Os sinos têm dobres de agonias

  Ao gemer, comovidos, o seu mal ...

  E todos têm sons de funeral

  Ao bater horas, no correr dos dias ....

 

  A minha Dor é um convento. Há lírios

  Dum roxo macerado de martírios,

  Tão belos como nunca os viu alguém!

 

  Nesse triste convento aonde eu moro,

  Noites e dias rezo e grito e choro,

  E ninguém ouve ..., ninguém vê ... ninguém ...

 

 

  Florbela Espanca


Por Pedro Leitão | Terça-feira, 07 Agosto , 2007, 20:02

Ainda sabemos cantar,

só a nossa voz é que mudou:

somos agora mais lentos,

mais amargos,

e um novo gesto é igual ao que passou.

 

Um verso já não é a maravilha,

um corpo já não é a plenitude.

 

Eugénio de Andrade


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 06 Agosto , 2007, 20:01

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

 

Eugénio de Andrade


Por Pedro Leitão | Domingo, 05 Agosto , 2007, 23:03

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

 

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

 

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

 

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

 

Eugénio de Andrade


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 25 Junho , 2007, 09:54

                               I

 

Sou vil, sou reles, como toda a gente,

Não tenho ideais, mas não as tem ninguém.

Quem diz que os tem é como eu, mas mente.

Quem diz que os busca é porque não os tem.

 

É com a imaginação que eu amo o bem.

Meu baixo ser porém não mo consente.

Passo, fantasma do meu presente,

Ébrio, por intervalos, de um além.

 

Como todos não creio no que creio.

Talvez possa morrer por esse ideal.

Mas, enquanto não morro, falo e leio.

 

Justificar-me? Sou quem todos são...

Modificar-me? Para meu igual?....

-Acaba lá com isso, ó coração!

 

Álvaro de Campos

 

 


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 25 Junho , 2007, 09:49

Tantos bons poetas!

Tantos bons poemas!

São realmente bons e bons,

Com tanta concorrência não fica ninguém,

Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,

Obtendo lugares por capricho do Empresário...

Tantos bons poetas!

Para que escrevo eu versos?

Quando os escrevo parece-me

O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece -

A única coisa grande no mundo...

Depois, escritos, visíveis, legíveis...

Ora... E nesta antologia de poetas menores?

Sei lá se realmente se distingue...

O melhor é dormir...

Fecho a antologia mais cansado do que o mundo -

Sou vulgar?...

Há tantos bons poetas!

Santo Deus!...

 

Álvaro de Campos


Por Pedro Leitão | Segunda-feira, 18 Junho , 2007, 23:18

Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo.

São - tictac visível - quatro horas de tardar o dia.

Abro a janela directamente, no desespero da insónia.

E, de repente, humano,

O quadrado com cruz de uma janela iluminada!

Fraternidade na noite!

 

Fraternidade involuntária, incógnita na noite!

Estambos ambos despertos e a humanidade é alheia.

Dorme. Nós temos luz.

 

Quem serás? Doente, moedeiro falso, insonte simples como eu?

Não importa. A noite eterna, informe, infinita,

Só tem, neste lugar, a humanidade das nossas duas janelas,

O coração latente das nossas duas luzes,

Neste momento e lugar, ignorando-nos, somos toda a vida.

 

Sobre o parapeito da janela e a traseira da casa,

Sentindo húmida da noite a madeira onde agarro,

Debruço-me para o infinito e, um pouco, para mim.

 

Nem galos gritando ainda no silêncio definitivo!

Que fazes, camarada, da janela com luz?

 

Sonho, falta de sono, vida?

Tom amarelo cheio da tua janela incógnita...

Tem graça: não tens luz eléctrica.

Ó candeeiros de pretóleo da minha infância perdida!

 

 

Álvaro de Campos

 

 


mais sobre mim
Novembro 2009
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
24
25
26
27
28

29
30


arquivos
2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO
subscrever feeds